segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Prosa poema

" Não choveu.
 Não se acumularam nuvens no céu naquela noite.
Dezembro era mês de festa na cidade e no cais.
Mas a lua não apareceu,
a cor  cinza do céu
não ficou azul com a chegada da noite.
O vento escurecia tudo.
valia como a chuva, os raios, os trovões, fazia o papel de todos,
aquela noite era ele só.
Ninguém ouvia a canção que Jeremias cantava,
o vento a dispersava.
Os velhos marinheiros olhavam as velas que entravam.
Vinham numa velocidade demasiada,
era preciso ser bom mestre de saveiro
para saber parar um barco no cais numa noite assim.
E vários estavam no mar largo ainda,
outros velejavam para a boca da barra,
vinham do rio.
O vento é o mais terrível dos dominadores do cais.
Ele encrespa as águas,
gosta de brincar com os saveiros,
de fazê-los voltear no mar,
destroncando os pulsos
daqueles que vão nos lemes.
Aquela noite era dele.
Começou apagando as lanternas,
deixando o mar sem suas luzes.
Só o farol piscava ao fundo, indicando o caminho.
Mas o vento levava para caminhos errados,
desviava-os da sua rota,
trazia-os para o mar largo,
onde as ondas eram fortes de mais para um saveiro.
Ninguém ouve a canção que o velho soldado canta
no forte abandonado.
Ninguém vê a luz da lanterna
que ele colocou no parapeito da ponte que entra pelo mar.
O vento apaga tudo, tudo destrói:
as lanternas
as canções."

(excerto de "mar morto" de Jorge Amado)

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