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sábado, 5 de abril de 2014
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Temos ouvidos e lemos
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar.
Vemos, ouvimos e lemos
Relatório da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror
A bomba de hiroshima
vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças
D´África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado!
(tema musicado da autoria de Sophia de Melo B. A.)
domingo, 24 de novembro de 2013
A voz do moinho
que o mundo era todo meu
e com a minha alegria
enchia a Terra eo Céu,
num cerro perto gemia
um moinho: e enquanto eu
era feliz, noite e dia
triste, o moinho gemeu.
Eu ria, sem um cuidado;
Mas do moinho a buzina
chorava num tom magoado!
Hoje, como no passado,
discordante é nossa sina:
- Eu choro... ele está calado!
(autor: Cristóvão Aires)
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
masmorra
Na
masmorra de mim mesmo
ora
choro ora canto
canto
por ti quando choras
choro
por ti se tu cantas
quando
choras...de certeza
que
o teu choro é de alegria
sei
que cantas de tristeza
quando
a alma vazia
nos
teus olhos fica presa
abre
os olhos e sorri
deixa
a alma libertar-se
não
mostres que tudo em ti
não
é mais que um disfarce
na
masmorra onde moro
sinto
que choras cantando
se
cantas também eu choro
e
cantando eu vou chorando
(autor: Tibério Gil)
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
A sombra sou eu
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
(autor: Almada Negreiros)
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Cidade, Rumor e Vaivém
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
montanhas sem nome e planícies mais vastas
que o mais vasto desejo,
e eu estou em ti fechada e apenas vejo
os muros e as paredes, e não vejo
nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
e que arrastas pela sombra das paredes
a minha alma que fora prometida
às ondas brancas e às florestas verdes.
(autor: Sophia de Mello Breyner Andresen)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
A minha aldeia
Como as árvores, vós sois a Natureza.
E se vos falta, um dia, o caldo para a ceia
E tendes de emigrar,
Troncos desarreigados pelo vento,
Levais terra pegada ao coração.
E partis a chorar.
Que sofrimento,
Ó Pátria, ver crescer a tua solidão!
(autor: Teixeira de Pascoais
1898)
terça-feira, 1 de outubro de 2013
caiu de chofre no rio
o sol
riram de vermelho amarelo e roxo
as ervas
estendem os braços e acariciam as águas
os salgueiros
gargarejam no leito
as pedras
riram as malvas e os lírios na margem
alvoraçadas as águas sussurram
impando nas pedras
sujo e triste
indiferente e manso
o Tejo
prossegue o caminho
do mar
lá onde há-de vestir-se de azul
enrendilhado de espuma
irá beijar as costas dos continentes
e nunca mais voltará a ser
que lambia a minha aldeia
(autor: Tibério Gil)
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Kyrie
Em nome dos que choram
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
(autor: Ary dos Santos)
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Se equivocó la paloma
Se equivocó la paloma.
Se equivocaba.
Por el ir al norte, fue al sur.
Creyó que el trigo era agua
Se equivocaba.
Creyó que el mar era el cielo;
que la noche, la mañana.
Se equivocaba.
Que las estrellas, rocío;
que la calor; la nevada.
Se equivocaba.
Que tu falda era tu blusa;
que tu corazón, su casa.
Se equivocaba.
(Ella se durmió en la orilla.
Tu, en la cumbre de una rama)
(Rafael Alberti)
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Ser doido-alegre
Morrer vivendo p´ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!
Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade.
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.
Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...
Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P´ra suportar melhor quem tem juízo.
(António Aleixo)
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Prosa poema
" Não choveu.
Não se acumularam nuvens no céu naquela noite.
Dezembro era mês de festa na cidade e no cais.
Mas a lua não apareceu,
a cor cinza do céu
não ficou azul com a chegada da noite.
O vento escurecia tudo.
valia como a chuva, os raios, os trovões, fazia o papel de todos,
aquela noite era ele só.
Ninguém ouvia a canção que Jeremias cantava,
o vento a dispersava.
Os velhos marinheiros olhavam as velas que entravam.
Vinham numa velocidade demasiada,
era preciso ser bom mestre de saveiro
para saber parar um barco no cais numa noite assim.
E vários estavam no mar largo ainda,
outros velejavam para a boca da barra,
vinham do rio.
O vento é o mais terrível dos dominadores do cais.
Ele encrespa as águas,
gosta de brincar com os saveiros,
de fazê-los voltear no mar,
destroncando os pulsos
daqueles que vão nos lemes.
Aquela noite era dele.
Começou apagando as lanternas,
deixando o mar sem suas luzes.
Só o farol piscava ao fundo, indicando o caminho.
Mas o vento levava para caminhos errados,
desviava-os da sua rota,
trazia-os para o mar largo,
onde as ondas eram fortes de mais para um saveiro.
Ninguém ouve a canção que o velho soldado canta
no forte abandonado.
Ninguém vê a luz da lanterna
que ele colocou no parapeito da ponte que entra pelo mar.
O vento apaga tudo, tudo destrói:
as lanternas
as canções."
(excerto de "mar morto" de Jorge Amado)
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Homem transportando o cadáver de uma mulher
Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!
(inédito de Almada Negreiros)
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Em branco
tenho um livro de folhas brancas
à espera
que eu as suje de palavras
que ninguém há-de entender
fico horas e horas a ler
folhas em branco que não escrevo
um livro que é só meu
quem quiser
que as leia como eu
e como estão
e nelas sinta tudo aquilo com que sonhei
e por birra de criança
ou sei lá se por vingança
não escrevi nem escreverei!
(Tibério Gil)
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Poetas
Ai alma dos poetas
Não as entende ninguém,
São almas de violeta
Que são poetas também.
Andam perdidas na vida,
Como estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito
Dores amargas secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!
(Florbela Espanca)
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